sexta-feira, 5 de julho de 2013

O dia seguinte com João Saldanha

Saldanha com Gérson e Pelé: críticas ao time de Telê.

Barcelona - Tantos crimes contra o bom senso, contra o senso comum, não poderiam passar impunemente. O fato de possuirmos jogadores extra-série como Zico, Falcão, Sócrates, Júnior e Cerezo dava a falsa impressão de que éramos superiores em tudo. Mas uma estupidez siderúrgica rondava nosso propósito de ganhar uma Copa, onde quem nos derrotou passou mal com o país dos Camarões. Inventaram uma tática no Brasil abandonando preciosos espaços de campo. Ora, somente um primarismo infantil e teimoso poderia pensar que os adversários não iriam aproveitar o erro clamoroso.

Veio logo o primeiro jogo, o da União Soviética. Sim, foi uma falha de Valdir Peres e isto é uma outra questão. Mas o time soviético, quando se apertava, jogava a bola para seu lateral esquerdo que sempre estava livre. Claro, raios que me partam, pois se não tínhamos ninguém ali. Leandro, sempre mal fisicamente, tentava suprir o extrema que não tínhamos.

No jogo da Itália, com mais quinze minutos sairia levado pelas enfermeiras não para um hospital, mas para um cemitério. Estava morto de cansaço. E o Cabrini folgava sempre. Era jogada de desafogo do time italiano. Qualquer problema e bastava jogar a bola por ali. Fizeram o primeiro e, quando precisavam da cera, bastava segurar o jogo pelo lado onde tínhamos apenas o Leandro.

Sim, Zico, Sócrates, Júnior, Cerezo e este estupendo Falcão sempre estiveram muito bem. Mas até carregadores de piano cansam quando fazem esforços acima de sua capacidade. Nosso time, com a tão decantada preparação especial, estava muito cansado no final do jogo. De um lado, existe algo positivo que é a desmistificação do charlatanismo. Os inventores do futebol que se recusam a ocupar espaços indispensáveis e que não percebem que se joga num retângulo, rigorosamente geométrico, e querem jogar enviesado como se as balizas estivessem nos córneres.

Se chegamos a uma posição tão elevada, devemos à qualidade de quatro ou cinco jogadores excepcionais, mas cuja capacidade física também tem seus limites. A Copa não era difícil de ganhar. Mas a teimosia superou tudo. Culpar Serginho seria um erro. O jogador não tem culpa da teimosia que ficou clara no primeiro jogo, mas infelizmente não foi aproveitada. Não deixo de assinalar que faltou um pouco de modéstia quando empatamos ontem em 2 a 2. Alguém andou rebolando ali e o time italiano, que estava melhor fisicamente do que o nosso, veio para cima e pôde ganhar. Paciência. Mas a estupidez tem um limite de tolerância.

Texto publicado no Jornal do Brasil, 
6 de julho de 1982.


terça-feira, 2 de julho de 2013

A barganha impossível de Tom Correia



Só acreditei que o jogo tinha acabado quando vi Júnior sair de campo, correndo pros vestiários. Eu não conseguia controlar o choro, enquanto minha mãe dizia que era apenas um jogo, tentando me acalmar. O pai, apático, era uma testemunha incrédula ao ver diante de si outro pesadelo igual ao de 1950. No dia seguinte, cabisbaixo e perdido, me sentei na porta de casa acariciando o meu cachorro da época. A rua estava de luto e voltei a me deitar no escuro do meu quarto. Escrever Rebote foi uma forma de viver uma fantasia, um meio lúdico e fugaz de transformar o passado. Sem a derrota não haveria o livro e participar de "82" é uma honra. Mas eu trocaria qualquer publicação pelo gol de empate, pelo título. 



Ricordazione


A profecia do amigo de Mayrant Gallo



Com o conto "O pintor de paredes" tentei "apagar o vazio" que ficou em mim com aquela derrota em julho de 1982. Me lembro bem: o jogo acabou, saí de casa, andei até a rua e fiquei olhando de um lado a outro, por alguns minutos, completamente desnorteado. E havia um agravante, na noite anterior um amigo havia me dito: "A Itália vai ganhar". Ou seja, não sei, nem jamais saberei, se a Itália venceria o jogo mesmo ou venceu porque o destino operou com aquela predição. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Lembranças VI


Ilustração de Gonza Rodriguez para o livro de Falcão, Brasil 82 - O time que perdeu a Copa e conquistou o mundo, lançado no final de 2012.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

"82" • Resenha de Andreia Santana



Traumas de uma Copa difícil de esquecer


Sessão de exorcismo coletiva, nascida de um bate-papo entre amigos escritores em uma mesa de bar, 82 - uma copa e quinze histórias, usando doses generosas de ironia e humor negro, lava a alma até de quem não tinha idade para entender o significado daquela derrota do Brasil para a Itália, na malfadada Copa do Mundo de 1982. Nem precisa ser muito versado no complexo universo da bola para se deixar seduzir pelas histórias dos autores e para sentir, mais de trinta anos depois, a tristeza, decepção ou assombro da geração que julgava aquela seleção sob as lentas de aumento da passionalidade futebolística. Sim, meus caros, éramos aparentemente imbatíveis, mas perdemos!

A Copa do “Voa Canarinho” faz parte do imaginário coletivo nacional como uma das mais zebradas da história dos mundiais e os autores dos contos de 82 não perdem a chance de reforçar o mito. Embasbacados, fazem coro com toda uma nação para a pergunta que não quer calar: Como assim fomos derrotados? Mas o objetivo passa longe de encontrar a resposta ou analisar todas as probabilidades do que poderia ter sido feito para evitar a “tragédia”. Há uma certa resignação de Lei de Murphy, um maktub (palavra árabe que simboliza a inexorabilidade do destino) dos gramados. Certas histórias, inclusive, funcionam como epopeia às avessas, em que ao invés de narrar as glórias dos vencedores, desfia-se um rosário em honra dos fracassados.

Do menino que reproduz nos cadernos de desenho os personagens dos quadrinhos da Disney como um amuleto lúdico que protege os jogadores em campo, à prostituta brasileira que deu sorte a Paolo Rossi, o italiano que funcionou como carrasco do Brasil na fatídica partida; sem esquecer o motorista de táxi que destila sua mágoa pela derrota diante de um impassível passageiro, ou mesmo o matador de aluguel contratado pela máfia e que com uma bala teria mudado a história, todos os personagens das 15 histórias trazem aquela amargura típica de quem no fundo tem uma pulga agarrada atrás da orelha a sussurrar: “não vai ser dessa vez!”

A Copa de 82 não desbotou como as bandeiras pintadas no asfalto pela molecada de muitas ruas país afora. Ao longo dos anos, foi repassada em replay cada vez que o Brasil enfrentou a Itália em um jogo decisivo. Nas páginas da coletânea, a competição torna-se vívida e pulsante novamente, como se o leitor tivesse embarcado em um túnel do tempo. Como se meter o dedo na ferida e limpar todas as suas bordas, culmine na cicatrização. Quem era criança na época, relembra as caras de decepção e o choro dos adultos, um cigarro que ficou pendente no canto dos lábios, um grito de gol que morreu na garganta ou um verso do sambinha de Júnior.

Mais ainda do que repassar cada um dos lances dos jogos em que o Brasil goleou outros adversários, o livro traça um panorama dos anos 80 em toda a sua romântica rebeldia. E não ficam de fora decepções amorosas juvenis tão profundas quanto a derrota nos gramados. Cada personagem/narrador reconta o “sarriaço” a partir de uma ótica muito particular, associando o trauma coletivo da perda do Mundial aos seus pequenos dramas cotidianos.

E é justamente por isso que, embora devidamente limpa e curativada, essa cicatriz, de vez em quando, ainda faz cócegas e arde.


The end



“Aquela partida nos deu a convicção de poder vencer o Mundial, porque o Brasil era uma grande equipe, técnica, forte em todos os setores. Nós não jogávamos tão bonito quanto os brasileiros, mas éramos mais rápidos,  eficazes e perigosos nos contra-ataques” 

Dino Zoff

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O sucesso fatídico de Igor Rossoni

Dirceu (1952-1995) jogou pela Seleção nas Copas da Espanha e da Argentina, onde recebeu o prêmio de terceiro melhor jogador do Mundial. Faleceu num acidente de carro no Rio de Janeiro.
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“O dia depois de ontem” é mais história de pequenas aflições interiorizadas que compõem a estória a partir do tema especificado. Manifesta-se por repercussões interiores experienciadas pela consciência atormentada de um personagem-narrador ao receber proposta para escrever sobre sucesso fatídico do passado. Assim, se – aparentemente – pouco se reporta a ele; jamais dele se afasta. Neste sentido, partindo de situação específica e destinando-se à de natureza universal, a narrativa se ergue por transmutações e amálgamas espaço-temporais; intenso monólogo interior; recursos metalinguísticos; digressões e anacronias. Portanto, mais do que mera representação de fato, busca-se – nele – a fome do sensibilizado fracasso, performatizada em discurso literário. 

Itália 1 X 1 Camarões



Na primeira fase foram três jogos e três empates. A Azzurra só se classificou em segundo lugar porque marcou um gol a mais, superando a seleção de Camarões. Em sua estreia em Copas, os africanos foram eliminados apesar de invictos. A Itália prosseguiu até o fim.