quarta-feira, 26 de junho de 2013

A homenagem de Carlos Barbosa


A potência de certos acontecidos requer cuidados no trato da memória. Eu sempre quis escrever sobre aquele almoço fraturado, aquela segunda-feira de luz, sombra e pavor. Hesitei, como sempre, ao receber o convite. Mas no fundo sabia que o conto já estava pronto, em alguma gaveta cerebrina. Não foi fácil espanar poeira e teias, realinhar os passos, emoldurar e colorir o causo. No entanto, quem escreve ficção sabe que o ofício reserva prazeres parecidos ao preparo de um banquete, com direito a experimentar desse e daquele prato, dessa ou daquela compota, e a alterar a seu gosto o cardápio e os temperos. É uma festa particular, onde se pode quebrar sem remorso taças e derramar vinho em brancas toalhas. E chorar escondido, também. Em "Jogo de cintura" homenageei um casal amigo prestes a ter o primeiro filho, revisitei meu tempo de bancário e paleteiro pelas ruas de Salvador e me entoquei novamente atrás de uma porta para assistir ao final da tragédia da seleção de Telê. Elis Regina e Moraes Moreira disseram presente na narrativa e obtive assim o ritmo que julguei adequado ao conto. Estou convencido de que a coletânea "82" será um golaço editorial, daqueles que resultam da participação de toda a equipe, com dribles curtos, passe em profundidade, corta-luz e tirambaço na rede adversária. 

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