sexta-feira, 21 de junho de 2013

Lembranças e reflexões: Tostão fala de "82" em sua coluna na Folha

 



















Ontem, dois dias antes do jogo contra a Itália, foi lançado, em Salvador, o livro "82: Uma Copa, 15 Histórias", uma seleção de contos de poetas e escritores, organizada por Mayrant Gallo, sobre a tragédia de Sarriá (5 de julho de 1982). Os autores contam o que faziam e o que sentiam no dia do jogo. Tive o prazer de fazer a orelha do livro. Na época, terminava meu primeiro ano de residência de clínica médica, no Hospital das Clínicas, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Trabalhava e estudava muito. Não tinha tempo para acompanhar futebol. Mesmo assim, troquei meus plantões para assistir à seleção brasileira. Foi triste a derrota. 

O operatório Dunga disse que não entende por que a seleção de 1982, que perdeu, é mais festejada que a de 1994, que venceu. Ele nunca vai entender. Discordo que a derrota de 1982 foi o motivo da transformação do futebol, para pior, e que todos passaram a seguir a pragmática Itália. O futebol mudou no Brasil, a partir da Copa de 1970. A seleção que encantou o mundo foi a grande inspiradora do futebol moderno. Por causa da excelente preparação científica, revolucionária para a época, surgiram, progressivamente, em todos os clubes, grandes comissões técnicas, com vários especialistas, além de excelentes estruturas profissionais, de treinamento e apoio aos atletas. Com isso, houve uma supervalorização do jogo tático e físico, em detrimento do talento e da improvisação. Os técnicos tomaram conta do futebol. O jogo ficou feio e ruim. Proliferaram também as discussões, inúteis, que continuam até hoje, entre futebol de resultado versus futebol bonito. Quem joga bem costuma jogar bonito e vencer. José Miguel Wisnik chamou o período entre 1974 e 1994 de intermezzo. 

Coincidentemente, o Brasil não ganhou um único título mundial. A seleção de 1982 foi uma exceção nesse período de declínio. A partir da Copa de 1994, o futebol teve altos e baixos. Melhorou nos últimos dez anos, especialmente entre os times da Europa, que contrataram os melhores jogadores do mundo, formaram campeonatos organizados e com excepcionais gramados e passaram a jogar em um estilo mais agradável, de troca de passes. As grandes equipes são melhores que as seleções. No Brasil e na América do Sul, por causa da saída dos melhores atletas, acontece o contrário. O dilema entre a vitória e o encanto transcende o futebol. Tem a ver com as dúvidas existenciais do ser humano, dividido entre a razão e a paixão, entre os devaneios individuais e os interesses coletivos, entre a imaginação e o simbólico.

Tostão

Fonte: Folha de São Paulo

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