A Copa de 1982 e a homofobia

Reinaldo e a Ditadura Militar, 2ª parte.

4 de maio de 2013

por Idelber Avelar


É curioso como certas inverdades se firmam até serem repetidas como se fatos fossem. Caso clássico é a não convocação de Reinaldo para a Copa de 1982, na qual sua ausência foi gritantemente sentida, dado o contraste entre o trombador Serginho Chulapa e o cintilante escrete de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Júnior, Éder e Luisinho. Se perguntados pela ausência de Reinaldo na Copa de 82, nove entre dez espectadores de futebol daquela época responderiam hoje que Telê Santana não o levou porque ele se encontrava contundido. A inverdade ganha verossimilhança, já que é sabido que o Rei sofreu frequentes contusões. É relevante desmontá-la aqui, porque a ausência de Reinaldo na Copa da Espanha está relacionada ao tema desta página, a homofobia – apesar de que o Rei é hétero.

Para não sobrecarregar o texto de links, ofereço todas as fontes de uma só vez. As datas e escalações da Seleção podem ser conferidas nos arquivos da RSSSF (http://bit.ly/134oiKV). As citações de Sócrates vêm de conversas minhas com ele, duas em Curitiba e várias em Londres. Todas as citações de Telê Santana e Reinaldo estão disponíveis nos arquivos da Revista Placar (http://bit.ly/134otpB). As referências a jogos do Campeonato Brasileiro podem ser conferidas na Futpedia (http://glo.bo/134o9Y7).

É lamentável que o filho de Telê Santana, Renê, tenha se dedicado a disseminar a inverdade de que o Rei não foi convocado para a Copa de 1982 porque estava contundido. Numa entrevista em que diz coisas bem confusas como “se é que tinha [homossexual naquela época]” (http://youtu.be/qJUPPntLzA0), Renê Santana atribui a Reinaldo uma “vida boêmia” na época, o que é falso e, incrivelmente, afirma que o Rei não foi a Copa porque “estava contundido, estava há seis meses sem encostar numa bola”. Não sei o que ele terá ouvido de seu pai, mas a história não é bem essa.

A Seleção se despediu do Brasil no dia 27 de maio, goleando a Irlanda por 7 x 0 em Uberlândia. A última competição entre clubes antes da Copa foi o Campeonato Brasileiro de 1982, em que Reinaldo atuou em TODAS as partidas decisivas da segunda fase, na qual o Galo foi eliminado no “Grupo da Morte”, que incluía Corinthians, Flamengo e Internacional. O Rei jogou contra: o Inter no Beira-Rio em 28/02; o Flamengo no Maracanã em 07/03; o Corinthians no Mineirão em 10/03; o Flamengo no Mineirão em 14/03; o Corinthians no Morumbi em 17/03. A convocação para a Copa aconteceu em abril e Renê Santana diz que seu pai não levou Reinaldo porque ele “estava há seis meses sem encostar numa bola”, sendo que o Rei participou de todas as partidas decisivas realizadas no mês de março.

A exclusão de Reinaldo, por motivos que nada têm a ver com contusões, havia se iniciado antes. O ano de 1981 é marcado pela polêmica acerca de quem seria o camisa 9 na Copa e ninguém discutia que o Rei era infinitamente superior aos outros cinco jogadores que estavam no páreo: Careca, Roberto Dinamite, Serginho Chulapa e, correndo por fora, Baltasar, do Grêmio, e o outro Roberto, do Sport Recife. Em 04 de setembro de 1981, Placar mostrava que todos os principais jogadores defendiam a presença de Reinaldo. Sócrates: “no meu time joga o Rei”. Júnior: “Reinaldo é o mais inteligente, o mais técnico e o mais perigoso”. Zico, com toda a sua autoridade: “é lógico que eu me entroso mais com o Reinaldo”. Éder: “Todos têm suas virtudes. A diferença é que o Reinaldo é o Reinaldo”. Segundo a mesma matéria, Telê resistira às pressões para convocar Reinaldo por “restrições ao seu comportamento fora do campo”.

Qual seria esse “comportamento” de Reinaldo ao qual Telê tinha restrições? Em matéria de 22 de janeiro de 1982, Placar nota: “a partir dali [o segundo semestre de 1981], Telê passou a censurá-lo, ora pela amizade do jogador com homossexuais, ora por suas brigas com a namorada, ora por suas ligações com o Partido dos Trabalhadores”. Em suas próprias palavras, Telê Santana afirma, em 13 de novembro de 1981: “a única coisa que Reinaldo sabe fazer é jogar futebol. Mas andaram botando na cabeça dele que ele é intelectual, que precisa ajudar os índios, o Lula, o Frei Beto”.

Telê, entre Sócrates e Zico na Toca da Raposa.

Muitas coisas prejudicaram a carreira de Reinaldo. A perseguição da ditadura militar, uma desastrosa e desnecessária operação no joelho aos 16 anos de idade, a violência carniceira dos zagueiros e a cumplicidade criminosa das arbitragens talvez tenham sido as quatro principais. De qualquer forma, entre os fatores que prejudicaram Reinaldo, não se encontram os índios, Lula ou Frei Beto. A declaração de Telê, um gênio do futebol que já homenageei várias vezes (http://bit.ly/18yQtkQ), dá testemunho de uma concepção conservadora do que deve ser a vida dos jogadores, segundo a qual eles deveriam, pelo simples fato de serem profissionais do futebol, renunciar a seus direitos de cidadão.

Naquele ano, a grande polêmica em torno a Reinaldo girava ao redor de três termos: comunista, maconheiro e veado. Vasculhando os arquivos da época, é impressionante notar a continuidade que se pressupunha entre esses termos, como se todo homossexual fosse comunista, todo comunista, maconheiro, e todo maconheiro, gay. Reinaldo não tinha problemas com drogas (ele os teve, com cocaína, muito depois de encerrada a carreira) e não era nem é homossexual. Foi, sim, socialista com coragem e lucidez, numa época em que o Brasil vivia sob ditadura militar.

Reinaldo tinha, no entanto, uma forte amizade com Tutti Maravilha, conhecido radialista de Belo Horizonte e, ele sim, gay assumido. Essa amizade foi fonte de escândalo ao longo de 1981 e as referências constantes de Telê ao “comportamento” de Reinaldo devem ser entendidas nesse contexto. Os hábitos sociais de Reinaldo nada tinham de desregrados, mesmo para os padrões da época. Em uma das longas conversas que tivemos em Londres sobre a Copa de 1982, Sócrates, com sua inesquecível gargalhada, zombou da desculpa dos supostos hábitos desregrados de Reinaldo: “Cerveja, Idelber? Como é que eu fui para a Copa? Eu bebia numa noite o que o Rei bebia em um ano. Não tinha nada de boemia. Foi homofobia pura”.

Boas pistas para se entender o papel da homofobia na não convocação de Reinaldo encontram-se na Placar de 31 de julho de 1981. O escândalo incomodou o próprio Tutti que, em seu programa na Rádio Capital, afirmou, corajosamente e em plena ditadura: “Esse papo com o Reinaldo é coisa careta, de um país careta e de uma sociedade infestada de falsos moralistas. Eu sou homossexual e amigo do Reinaldo como sou amigo de uma porção de outras pessoas. Tudo limpo, tudo às claras. A cabeça das pessoas é que é suja”. No momento em que é perguntado pelo caso, o Rei responde, com extraordinário bom humor: “Transar com o Tutti, minha gente, seria o mesmo que cometer um incesto”. O estranhíssimo pânico de que a homossexualidade é contagiosa e de que alguém não pode ser o melhor amigo de um gay sem tornar-se gay também subjaz toda a patética polêmica provocada pela homofobia de Telê. Já farto da história, Reinaldo desabafa, ainda em junho de 1981: “se saio à noite com mulheres, sou boêmio. Se não saio, sou viado. O que fazer?”

Telê Santana foi um dos maiores gênios da história do futebol e é amado, com todos os méritos, pela torcida do Galo. Ele nos deu, afinal de contas, o título mais importante de nossa história, o Brasileirão de 1971. Mas seu veto à participação do maior centroavante de sua época na Copa que poderia tê-lo consagrado mundialmente traz as marcas de uma sociedade preconceituosa, hipócrita, homofóbica.

Um mês e meio depois da Copa da Espanha, o Galo excursiona à Europa e massacra por 3 x 0 o Paris Saint Germain, a melhor equipe francesa do momento. O terceiro gol, de Reinaldo, é uma pintura inesquecível que o público aplaude de pé durante longos minutos (http://youtu.be/FHGWrtYjubY). Depois do jogo, estupefatos, os jornalistas franceses cercam o Rei e perguntam-lhe o óbvio: “Por que você não foi à Copa?” Mal sabiam os franceses que, no próprio Brasil, trinta anos depois, a resposta ainda seria desconhecida da maioria, e ilustraria mais um capítulo de nossa desmemória.

Idelber Avelar é professor de teoria literária, especializado em ficção latino-americana na Universidade de Tulane, em New Orleans. Também é atleticano.

Fonte: Sul21

Nenhum comentário:

Postar um comentário